Bem-estar ainda aparece distante da ideia de universidade para estudantes da USP, aponta estudo
- Carlos Vinicius Gomes Melo
- há 5 dias
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Atualizado: há 3 dias
Pesquisa publicada na Grad+ USP mostra que estudantes associam bem-estar a saúde, tranquilidade, apoio social e autocuidado, enquanto a universidade aparece marcada por estudo, oportunidade, pressão e desgaste.

Um estudo realizado com 634 estudantes da Universidade de São Paulo traz uma questão central para o debate contemporâneo sobre saúde mental no ensino superior: a universidade é percebida como espaço de bem-estar? Os resultados indicam que, para muitos estudantes, ainda não.
Publicado na Grad+ Revista de Graduação USP, o artigo “As representações sociais de estudantes da Universidade de São Paulo sobre ‘Bem-estar’ e ‘Universidade’” analisou as palavras evocadas por estudantes da USP diante dos termos “bem-estar” e “universidade”. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Grupo de Pesquisa Psicologia e Relações Étnico-Raciais, vinculado ao Instituto de Psicologia da USP, e integra o projeto “Limites e Possibilidades para o Bem Viver de Estudantes Negros em Instituições de Ensino Superior”, financiado pela FAPESP.
O estudo tem, dentre os autores, Carlos Vinicius Gomes Melo, coordenador da EduWellTech, Danrley Pereira de Castro, Alessandro de Oliveira dos Santos e Karen Cristine Matos Santana pesquisadores colaboradores da iniciativa, fortalecendo a interface entre psicologia social, saúde mental estudantil e inovação psicossocial aplicada à governança universitária.
A análise mostrou uma dissociação expressiva entre os sentidos atribuídos a “bem-estar” e “universidade”. Quando pensam em bem-estar, os estudantes evocam termos como saúde, tranquilidade, paz, felicidade, conforto, segurança, família, amigos, sono, alimentação, exercício físico, descanso e natureza. Já a universidade aparece associada a estudo, pesquisa, ensino, aula, professor, curso, campus e profissão, mas também a ansiedade, estresse, cansaço, pressão, cobrança, dificuldade, medo e sofrimento.

Esse resultado é especialmente relevante porque indica que o bem-estar estudantil não pode ser tratado apenas como uma responsabilidade individual. A saúde mental universitária depende de condições institucionais, relacionais, acadêmicas e materiais que favoreçam pertencimento, suporte social, equilíbrio entre demandas e recursos, acesso a políticas estudantis e ambientes de aprendizagem menos adoecedores.
O estudo também evidencia que as experiências de bem-estar não se distribuem igualmente entre todos os estudantes. As representações associadas a rotinas de cuidado, como alimentação, sono, descanso, atividade física, contato com a natureza e suporte social, aparecem relacionadas a estudantes brancos e de renda familiar mais alta. Esse dado reforça uma questão decisiva para a governança psicossocial: promover saúde mental estudantil exige reconhecer desigualdades de raça, renda, origem escolar e acesso a recursos de cuidado.
Outro achado relevante está na ambivalência da vivência universitária. Para estudantes egressos de escolas públicas, a universidade pode aparecer como conquista, oportunidade e realização, mas também como dificuldade, sofrimento e frustração. Esse duplo sentido mostra que o acesso ao ensino superior precisa ser acompanhado por políticas bem estruturadas de permanência, acolhimento, assistência estudantil e promoção de saúde.
Nesse conjunto de resultados, a prática de exercício físico aparece como um elemento particularmente relevante. No estudo, ela surge tanto no campo das representações associadas ao bem-estar — ao lado de sono, alimentação, descanso, saúde mental e autocuidado — quanto vinculada a estudantes que demonstram maior satisfação com a universidade. Esse dado sugere que a atividade física pode funcionar como uma ponte entre dimensões individuais, relacionais e institucionais da experiência acadêmica.
Mais do que uma recomendação comportamental isolada, o exercício físico deve ser compreendido como parte de uma ecologia ampliada de cuidado. Ele se articula a rotinas de autocuidado, disponibilidade de tempo, acesso a espaços adequados, segurança no campus, políticas de esporte e lazer, apoio social e condições materiais de permanência. Por isso, sua presença nas representações de bem-estar não deve ser interpretada como simples responsabilidade individual do estudante, mas como um indicador da importância de ambientes universitários que favoreçam práticas cotidianas de cuidado.
A literatura científica tem apontado que a prática regular de atividade física pode contribuir para a redução de sintomas de ansiedade e estresse, melhora do humor e ampliação da qualidade de vida. No contexto universitário, esse efeito ganha relevância adicional porque pode se associar ao engajamento acadêmico, à satisfação com a vida estudantil e à percepção de maior equilíbrio entre as exigências da formação e as condições concretas para vivê-la. Assim, o exercício físico aparece como um fator articulador entre bem-estar, saúde mental e experiência universitária, desde que situado em uma perspectiva institucional e não apenas individualizante.
Esse ponto é decisivo para a governança psicossocial no ensino superior. Se o bem-estar depende de vínculos, rotina, saúde, descanso, suporte social, pertencimento e condições materiais, então as universidades precisam produzir ambientes que tornem essas dimensões possíveis. O desafio não é apenas informar estudantes sobre hábitos saudáveis, mas criar condições acadêmicas, territoriais e institucionais para que tais hábitos possam ser incorporados à vida universitária.
Para a EduWellTech, esses resultados reforçam a importância de produzir diagnósticos psicossociais qualificados nas instituições de ensino superior. Não basta saber quantos estudantes relatam sofrimento, ansiedade ou insatisfação. É necessário compreender como eles representam a universidade, quais dimensões da experiência acadêmica se aproximam ou se afastam do bem-estar e quais grupos estão mais vulneráveis a processos de desgaste.
A pesquisa aponta para um horizonte estratégico: universidades que desejam promover excelência acadêmica precisam também monitorar e cuidar das condições psicossociais da vida estudantil. Isso inclui integrar dados sobre saúde mental, pertencimento, satisfação, suporte social, permanência, desigualdades, atividade física, qualidade dos espaços e qualidade da experiência acadêmica.
Nesse sentido, a EduWellTech atua no desenvolvimento de soluções baseadas em evidências para apoiar instituições de ensino na construção de modelos de governança psicossocial. A investigação sobre representações sociais de bem-estar e universidade demonstra que saúde mental estudantil não é um tema periférico: é um indicador de qualidade institucional, permanência acadêmica, justiça educacional e inovação na gestão universitária.
Os resultados reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre saúde mental no ensino superior para além do desempenho acadêmico e da resposta individual ao sofrimento. A dissociação entre “bem-estar” e “universidade” sugere que a experiência universitária ainda precisa incorporar, de modo mais intencional, dimensões relacionadas ao pertencimento, às relações interpessoais, ao suporte institucional, à cultura acadêmica, às condições materiais de permanência e às práticas cotidianas de cuidado.
O estudo oferece uma contribuição importante para a compreensão das experiências subjetivas de estudantes universitários no contexto brasileiro contemporâneo. A combinação entre uma amostra ampla, análise lexical estatística e variáveis sociodemográficas permitiu identificar padrões relevantes sobre saúde mental, bem-estar, pertencimento e desigualdade no ensino superior.
Os autores defendem que universidades públicas avancem na construção de políticas institucionais que considerem a experiência estudantil em sua dimensão integral, incorporando saúde mental, vínculos sociais, cultura, acolhimento, atividade física, condições materiais de permanência e qualidade da vida acadêmica como elementos centrais da formação universitária.
O texto completo sobre a publicação também foi divulgado no blog do Grupo de Pesquisa Psicologia e Relações Étnico-Raciais (IP-USP). Para maior detalhamento sobre a metodologia e os achados científicos, acesse a edição volume 9, número 1, de agosto de 2025, da Grad+ Revista de Graduação USP. A partir dessa base, a EduWellTech amplia o debate para o campo da inovação em saúde mental estudantil, destacando como pesquisas psicossociais podem orientar políticas, tecnologias e estratégias institucionais mais sensíveis às necessidades reais dos estudantes.



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