Gestão, cuidado e ciência: por que escutar gestores é uma etapa central da PoC da EduWellTech na UFBA
- Carlos Vinicius Gomes Melo
- 5 de mai.
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de mai.

Na saúde mental universitária, cuidar não depende apenas de ampliar atendimentos. Depende também de compreender como a instituição se organiza para escutar, encaminhar, proteger e decidir. É essa a aposta da EduWellTech (USP-CIETEC/IPEN) para a primeira etapa da sua Prova de Conceito (PoC) na UFBA, dedicada à escuta dos gestores da rede psicossocial da universidade.
A saúde mental de estudantes universitários tem sido frequentemente associada à ampliação de atendimentos psicológicos, serviços de acolhimento e encaminhamentos especializados. Essas respostas são necessárias, mas não esgotam o problema. Em universidades públicas, especialmente em instituições grandes, diversas e multicampi, o sofrimento estudantil também revela como a instituição organiza seus serviços, comunica seus fluxos, articula suas equipes e transforma demandas em políticas de cuidado e permanência.
Neste momento, a colaboração com gestores se torna estratégica para a Prova de Conceito (PoC) da EduWellTech na Universidade Federal da Bahia. A iniciativa integra o Projeto de Extensão de Convivência Universitária Mãos Dadas e é executada institucionalmente pelo Gabinete da Reitoria e pela Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil, PROAE/UFBA, em cooperação técnico-científica com a EduWellTech, startup tecnológica incubada no ecossistema USP-CIETEC/IPEN.
De 27 de abril a 4 de maio, gestores dos serviços psicossociais e instâncias de saúde da UFBA forneceram informações gerais sobre a organização da rede de cuidado, proteção e permanência da universidade, incluindo escopo, fluxos, protocolos, públicos e demandas.
Esse mapeamento envolve os 20 serviços que compõem a Rede de Proteção Psicossocial da UFBA e o Círculo de Protagonismo e Cuidado. Essa composição amplia a noção de cuidado institucional ao incluir não apenas serviços diretamente vinculados à assistência estudantil, à saúde universitária e ao apoio psicossocial, mas também instâncias fundamentais para escuta, proteção de direitos e enfrentamento de violências no ambiente acadêmico. Entre elas estão a Ouvidoria Geral, a Ouvidoria de Mulheres e a Câmara de Prevenção, Acolhimento e Enfrentamento aos Assédios Moral e Sexual, Racismo e todas as formas de Discriminação da UFBA.
Essa escolha metodológica parte de uma compreensão ampliada de saúde mental. O sofrimento estudantil não é apenas uma questão clínica ou individual. Ele também pode ser produzido, agravado ou atenuado por fatores institucionais, sociais, étnico-raciais, de gênero, econômicos e relacionais. Por isso, uma rede de proteção psicossocial precisa ser compreendida não somente como um conjunto de serviços, mas como um sistema de fluxos, decisões e responsabilidades compartilhadas.
A literatura voltada para a gestão em saúde mental destaca a importância desse processo. Estudos do campo da Saúde Coletiva e à Reforma Psiquiátrica mostram que gerir serviços de cuidado vai além da simples supervisão de recursos, agendas ou tarefas diárias. Gestão implica organizar o fluxo de trabalho, resolver conflitos, criar espaços para discussão coletiva e manter decisões feitas em conjunto. Nos serviços psicossociais, a gestão é ainda mais desafiante, já que diferentes ideias sobre cuidado, sofrimento, risco, autonomia e responsabilidade institucional coexistem e influenciam a rotina das equipes.
No contexto universitário, essa discussão ganha uma nova camada. Uma rede pode ter profissionais qualificados e, ainda assim, funcionar de modo fragmentado. Pode ter serviços relevantes e, ainda assim, ser pouco visível para os estudantes. Pode acolher casos complexos, mas sem produzir indicadores suficientes para orientar políticas de permanência.
É nesse ponto que a escuta dos gestores se torna decisiva.
Ela permite acessar um tipo específico de conhecimento: aquele produzido no cotidiano da instituição. Gestores analisam fluxos de demanda, identificam pontos de acúmulo e interrupção, reconhecem sobrecargas, falhas de comunicação, dificuldades de encaminhamento e potencialidades ainda pouco exploradas.
A proposta da EduWellTech não é substituir as tecnologias leves do cuidado como acolhimento, escuta qualificada, vínculo e convivência — por soluções digitais. Ao contrário, o objetivo é fortalecer essas práticas por meio de tecnologias leve-duras e duras: protocolos, instrumentos, fluxos, indicadores, mapas digitais, painéis analíticos e protótipos de apoio à gestão e monitoramento da saúde mental estudantil. A inovação, nesse caso, não está apenas na tecnologia, mas na capacidade de conectar cuidado, dados e decisão institucional.

Essa distinção é importante! Inovar em saúde mental universitária não significa apenas criar uma plataforma. Significa construir condições para que a universidade compreenda melhor suas próprias demandas, organize seus recursos, reconheça desigualdades, qualifique seus encaminhamentos e fortaleça sua capacidade de resposta. A tecnologia, nesse caso, é uma mediação entre cuidado, dados e decisão institucional.
Ao mapear os serviços da Rede de Proteção Psicossocial da UFBA e seu Círculo de Protagonismo e Cuidado, a PoC tecnológica da EduWellTech contribui para uma pergunta central: como transformar dispositivos existentes em uma rede efetiva de cuidado, permanência, pertencimento e proteção de direitos?
A resposta não depende apenas de ampliar atendimentos. A solução exige tornar a rede visível e acessível para os estudantes, eficiente para quem nela trabalha e estratégica para os gestores tomarem decisões. Por isso, a escuta da gestão é parte central desse diagnóstico institucional que resultará nos indicadores de saúde mental estudantil.
A etapa com gestores representa mais do que um levantamento técnico. Ela inaugura uma dimensão decisiva da governança psicossocial universitária, gerando evidências científicas, fortalecendo políticas de cuidado, enfrentando desigualdades e apoiando decisões baseadas na realidade da UFBA.
Em uma universidade pública, cuidar da saúde mental é também cuidar da forma como a instituição se organiza para escutar, proteger, encaminhar e transformar. Quando fundamentada em dados e dedicada à proteção de direitos, a gestão pode atuar como uma tecnologia voltada ao cuidado.


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