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Saúde mental dos professores: o que o esgotamento revela sobre a vida em sala de aula

há 3 dias
7 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Carlos Vinicius Gomes Melo


Pesquisas ajudam a compreender o burnout docente, sua relação com a experiência dos alunos e o papel das instituições na prevenção.


Preparar aulas, corrigir atividades, acompanhar dificuldades dos alunos e participar de reuniões são tarefas que ocupam o trabalho dos professores para além do encontro com a turma. Elas exigem tempo, atenção e disponibilidade emocional. Quando se acumulam em condições que dificultam sua realização, o desgaste pode afetar a maneira como o profissional vive o trabalho e se relaciona com ele.


É a partir dessa rotina que pesquisadores vêm investigando a saúde mental docente e suas relações com a experiência dos estudantes. A discussão, retomada em outubro com o Dia do Professor, aproxima dois assuntos frequentemente tratados em separado: as condições oferecidas para trabalhar e as condições oferecidas para aprender.


Como o desgaste se transforma em esgotamento

A Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente. A palavra “crônico” é importante: indica uma exposição persistente, em que as exigências se prolongam e a recuperação se torna insuficiente. A definição reúne três dimensões que ajudam a compreender esse processo.


A primeira é o esgotamento de energia, percebido como exaustão para sustentar as atividades. A segunda é o distanciamento mental, que pode aparecer como perda de envolvimento ou atitudes negativas diante do trabalho. A terceira é a redução da eficácia profissional: a percepção de que já não se consegue realizar as tarefas com a eficácia habitual. Na docência, essas dimensões ajudam a examinar o desgaste de uma atividade que depende de preparação, atenção e relações humanas contínuas.


Para explicar como esse processo se relaciona com o trabalho, a psicóloga Evangelia Demerouti e seus colegas propuseram, em 2001, o modelo de demandas e recursos. Demandas são os aspectos da atividade que exigem esforço: volume de tarefas, prazos, concentração e manejo de situações emocionalmente difíceis. Recursos são as condições que ajudam a realizar o trabalho, como tempo de preparação, autonomia, materiais e apoio da coordenação.


Essa perspectiva permite compreender por que a mesma tarefa pode ser vivida de maneiras diferentes. Preparar uma aula com tempo reservado, acesso aos materiais e possibilidade de discutir dificuldades com colegas é uma experiência diferente de fazê-lo entre solicitações urgentes e atividades acumuladas. No modelo, exigências elevadas se relacionam ao consumo de energia; recursos insuficientes, à dificuldade de manter o envolvimento com o trabalho.


O apoio nas relações profissionais também aparece na revisão de 98 estudos publicada em 2021 por Tina Hascher e Jennifer Waber, de instituições de pesquisa e formação docente de Berna, na Suíça. As autoras destacam a importância das relações com colegas e lideranças para compreender o bem-estar dos professores. Esse bem-estar inclui satisfação com a atividade, emoções vividas no cotidiano e qualidade das relações. São dimensões que ajudam a entender como o professor se sente em seu ambiente profissional, inclusive quando mantém interesse pela educação e enfrenta dificuldades na rotina.


O que a pesquisa encontrou entre professores e alunos

Em 2021, Daniel Madigan e Lisa Kim, de universidades britânicas, publicaram uma revisão sistemática com 14 estudos, envolvendo 5.311 professores e 50.616 estudantes. Esse tipo de revisão organiza e compara pesquisas já realizadas sobre uma mesma questão. Os autores encontraram algumas evidências de associação entre burnout docente, pior desempenho acadêmico e menor qualidade da motivação dos alunos.


Desempenho acadêmico corresponde, nesses trabalhos, a resultados como notas e pontuações em avaliações. Já a motivação diz respeito às razões que levam o estudante a se envolver com uma atividade. Estudar por interesse ou por reconhecer valor no conteúdo é uma forma de motivação autônoma. Quando o envolvimento depende sobretudo de cobranças, recompensas ou receio de consequências, os pesquisadores falam em motivação controlada. Essa distinção, discutida por Richard Ryan e Edward Deci, ajuda a explicar a expressão “qualidade da motivação”: a pesquisa examina o que sustenta o envolvimento com os estudos, para além de quanto tempo o aluno permanece realizando uma tarefa.


O bem-estar dos estudantes, por sua vez, diz respeito à forma como se sentem e vivem suas experiências. Na definição da OMS, a saúde mental envolve condições para lidar com as tensões da vida, desenvolver capacidades, aprender e participar da comunidade. No cotidiano escolar, essa perspectiva leva a observar o apoio disponível, as relações e a participação dos alunos nas atividades.


A investigação dessa convivência também alcança respostas do próprio organismo ao estresse. As pesquisadoras Eva Oberle e Kimberly Schonert-Reichl, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, analisaram 406 estudantes do ensino fundamental. Compararam medidas de burnout dos professores com amostras de saliva dos alunos, coletadas em três horários do dia. O trabalho, publicado em 2016 na revista Social Science & Medicine, encontrou associação entre maior burnout docente e níveis mais elevados de cortisol matinal nos estudantes.


O cortisol é um hormônio que participa da resposta do organismo às exigências e varia ao longo do dia. Sua medição permite observar uma dimensão fisiológica do estresse. Ao colocá-la ao lado das informações sobre o professor, a pesquisa procurou compreender como o ambiente compartilhado por uma turma poderia aparecer tanto na experiência profissional do educador quanto nas respostas dos alunos.


Esses achados têm limites que precisam ser considerados em conjunto. Uma associação indica que dois fenômenos aparecem relacionados, mas não determina qual deles veio primeiro nem comprova que um causou o outro. O cortisol não é um diagnóstico de transtorno mental, e a revisão de Madigan e Kim encontrou pouca evidência direta de relação entre burnout docente e bem-estar discente. Além disso, resultados de escolas de outros países exigem cuidado ao serem aplicados ao ensino superior brasileiro. A leitura das pesquisas orienta a investigação do ambiente educacional e das necessidades de cada grupo, preservando essa diferença entre os resultados observados e as explicações ainda em estudo.


Como essa discussão chega à prevenção

Nas diretrizes sobre saúde mental no trabalho, publicadas em 2022, a OMS recomenda intervenções organizacionais, formação de gestores e trabalhadores e apoio às pessoas com problemas de saúde mental. Uma intervenção organizacional atua sobre a maneira como o trabalho acontece. Pode envolver, por exemplo, a distribuição das tarefas, os prazos, os canais de comunicação e as formas de apoio disponíveis à equipe. O acompanhamento individual integra o cuidado com a pessoa; as medidas institucionais alcançam as condições em que ela trabalha.


No Brasil, essa abordagem se relaciona à NR-1, que inclui os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. A expressão designa aspectos da organização e das relações profissionais que podem prejudicar a saúde, como sobrecarga, assédio e apoio insuficiente. Gerenciar esses riscos significa identificar as situações, avaliar a probabilidade de ocorrência e a gravidade dos possíveis danos e estabelecer medidas para preveni-los ou reduzi-los.


Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, esse processo reúne a análise das atividades reais, a participação dos trabalhadores e o acompanhamento das medidas adotadas. Os resultados de questionários devem ser analisados tecnicamente e incorporados à avaliação das condições de trabalho. Na educação, a aplicação da norma considera o enquadramento das instituições com trabalhadores contratados pela CLT. Para servidores submetidos a estatutos próprios, também devem ser observadas as regras do serviço público.


A implementação segue em discussão judicial. Em setembro de 2026, o STF prorrogou por 90 dias a suspensão de sanções relacionadas às novas exigências. Em 14 de outubro, suspendeu por 60 dias a tramitação das ações para permitir o debate na Advocacia-Geral da União. As decisões tratam das penalidades e dos processos em negociação e não representam a suspensão integral da NR-1.


Serviços da EduWellTech

A EduWellTech Work é um dos serviços especializados da EduWellTech, dedicado à saúde mental dos trabalhadores. Nas instituições de ensino, apoia a avaliação do bem-estar de professores e demais profissionais, a compreensão dos fatores psicossociais relacionados ao trabalho e o planejamento de ações de prevenção e cuidado. O serviço reúne pesquisa aplicada, escuta, análise de dados e análise institucional para oferecer informações úteis às decisões da gestão.


A EduWellTech Campus se dedica à saúde mental dos estudantes, considerando experiências acadêmicas, suporte social, pertencimento e condições de permanência.


O Ecossistema de Cuidado é outro serviço da EduWellTech e pode ser integrado à Work e à Campus. Sua atuação envolve o mapeamento dos serviços e recursos de apoio disponíveis na instituição e a análise de como estudantes e trabalhadores conhecem, acessam e utilizam esses recursos. Esse trabalho ajuda a identificar lacunas no atendimento às necessidades da comunidade e pode apoiar a articulação entre equipes, a revisão dos fluxos de acolhimento e encaminhamento e o planejamento de melhorias na rede de cuidado.


A integração dessas frentes permite relacionar as necessidades identificadas nos diferentes públicos às condições que a instituição oferece para acolhê-los e apoiá-los. Instituições interessadas podem conversar com a equipe da EduWellTech sobre possibilidades de avaliação, planejamento e acompanhamento adequadas à sua comunidade.


Referências

Demerouti, E., Bakker, A. B., Nachreiner, F., & Schaufeli, W. B. (2001). The job demands-resources model of burnout. Journal of Applied Psychology, 86(3), 499–512. https://doi.org/10.1037/0021-9010.86.3.499

Hascher, T., & Waber, J. (2021). Teacher well-being: A systematic review of the research literature from the year 2000–2019. Educational Research Review, 34, Article 100411. https://doi.org/10.1016/j.edurev.2021.100411

Madigan, D. J., & Kim, L. E. (2021). Does teacher burnout affect students? A systematic review of its association with academic achievement and student-reported outcomes. International Journal of Educational Research, 105, Article 101714. https://doi.org/10.1016/j.ijer.2020.101714

Ministério do Trabalho e Emprego. (2025). Guia de informações sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho: NR-1 — Gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO). https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/normas-regulamentadora/normas-regulamentadoras-vigentes/guia-nr-01-revisado.pdf

Ministério do Trabalho e Emprego. (2026, 30 de abril). NR-1: Perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 — Gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO), 1ª rodada. https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/inspecao-do-trabalho/seguranca-e-saude-no-trabalho/canpat-2/canpat-2025/perguntas-e-respostas-gro-pgr-1a-rodada.pdf

Oberle, E., & Schonert-Reichl, K. A. (2016). Stress contagion in the classroom? The link between classroom teacher burnout and morning cortisol in elementary school students. Social Science & Medicine, 159, 30–37. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2016.04.031

Ryan, R. M., & Deci, E. L. (2020). Intrinsic and extrinsic motivation from a self-determination theory perspective: Definitions, theory, practices, and future directions. Contemporary Educational Psychology, 61, Article 101860. https://doi.org/10.1016/j.cedpsych.2020.101860

Supremo Tribunal Federal. (2026a, 14 de outubro). Relator autoriza levar discussão sobre NR-1 a fórum da AGU para viabilizar conciliação. https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/relator-autoriza-levar-discussao-sobre-nr-1-a-forum-da-agu-para-viabilizar-conciliacao/

Supremo Tribunal Federal. (2026b, 24 de setembro). Relator prorroga suspensão de sanções sobre riscos psicossociais no trabalho. https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/relator-prorroga-suspensao-de-sancoes-sobre-riscos-psicossociais-no-trabalho/

World Health Organization. (2019, May 28). Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases

World Health Organization. (2022). WHO guidelines on mental health at work. https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052

World Health Organization. (2026, September 11). Mental health. https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-strengthening-our-response


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